Se permitir mesmo com medo: um caminho entre psicanálise e neurociência

Permitir-se é muitas vezes um ato de coragem que nos convida a atravessar territórios internos marcados pelo medo, aquele temor que nos paralisa e nos mantém presos em zonas de conforto, ainda que dolorosas. A psicanálise nos ensina que o medo está profundamente enraizado em nossos conflitos inconscientes, naquilo que evitamos reconhecer ou enfrentar. Freud já destacava que o recalcamento protege o sujeito do sofrimento imediato, mas mantém vivas pulsões que podem se manifestar como ansiedade ou angústia.

Do ponto de vista da neurociência, o medo ativa áreas cerebrais como a amígdala, que é o centro da resposta emocional, especialmente a relacionada ao perigo. Quando sentimos medo, nosso cérebro sinaliza um alerta vermelho, mobilizando respostas de defesa como lutar, fugir ou congelar. Esse mecanismo primitivo é vital para a sobrevivência, mas pode tornar-se um obstáculo quando enfrentamos desafios emocionais ou mudanças importantes. O medo, então, se converte numa barreira neurobiológica e psíquica para o movimento da vida.

No entanto, se permitir, ou seja, abrir espaço para o novo, para o desconhecido, mesmo com esse medo presente, é um convite para reconfigurar essa dinâmica. Permitir-se é a possibilidade de observar o medo não como um inimigo absoluto, mas como um sinal que pode ser escutado e integrado. Na prática psicanalítica, isso acontece quando o sujeito reconhece seus medos e desejos, nomeando-os e permitindo que afloram à consciência, sem ser dominado por eles.

A neurociência também aponta que o córtex pré-frontal, responsável pelo controle executivo e pela regulação emocional, pode atuar para modular essa resposta do medo. Ao cultivar a atenção plena e a reflexão, podemos ampliar essa regulação, permitindo-nos agir apesar do medo e não simplesmente reagir a ele. Esse equilíbrio entre a amígdala e o córtex pré-frontal é o que possibilita o agir consciente, a verdadeira liberdade interior.

Por isso, se permitir mesmo com medo é na verdade um ato de sabedoria que integra corpo, mente e emoção. É permitir-se sentir o medo sem se deixar paralisar, é aceitar a vulnerabilidade humana e encontrar na própria força interna um caminho para o crescimento. É o encontro com um sujeito que se reconhece em sua complexidade, que sabe que avançar é também enfrentar a incerteza, mas que essa incerteza pode ser fonte de transformação.

No fundo, se permitir é um ato psíquico de coragem que abraça o medo sem se anular por ele, que aceita o risco de ser inteiro apesar das sombras internas. É o convite para caminhar com medo, mas não ser refém dele.

Um comentário em “Se permitir mesmo com medo: um caminho entre psicanálise e neurociência

Adicione o seu

Deixar mensagem para Jonathan Casé Cancelar resposta

Um site WordPress.com.

Acima ↑