Muitas vezes, quando sentimos que alguém “não nos entende” ou nos critica, a reação que temos diz mais sobre nós mesmos do que sobre a outra pessoa. Isso acontece porque carregamos experiências do passado, especialmente da infância, que moldaram a forma como sentimos, reagimos e nos relacionamos.
Por exemplo, quem cresceu sem acolhimento ou validação de figuras importantes (pais ou cuidadores) tende a dar um peso maior à opinião dos outros. Um comentário neutro ou uma reação do outro que na maioria das pessoas não causaria sofrimento, para quem não recebeu reconhecimento emocional na infância pode gerar sentimentos intensos de frustração, raiva ou rejeição.
Quando dizemos “você não me entende”, muitas vezes não estamos apontando um erro real da outra pessoa. Estamos expressando, mesmo sem perceber, a carência antiga de acolhimento. O que dói é que o presente ativa emocionalmente memórias de rejeição ou falta de validação, e é isso que faz a reação parecer desproporcional.
O que a psicanálise mostra é que, ao reconhecer que essa reação reflete experiências passadas, conseguimos observar nossos sentimentos de forma mais clara. Não significa ignorar o que o outro faz ou diz, mas perceber que a intensidade da nossa emoção vem de dentro, do que ficou incompleto ou reprimido, e não apenas do que acontece no momento.
Essa compreensão ajuda a lidar melhor com a frustração e a raiva, porque nos dá consciência do que realmente estamos sentindo e por quê, sem deixar que uma carência antiga controle nossas respostas no presente.
E isso nos leva a uma reflexão importante: cada vez que buscamos no outro acolhimento, compreensão ou validação, vale se perguntar o que ainda falta em nós mesmos. Quais partes do nosso próprio mundo interno estão carentes de cuidado, reconhecimento ou afeto, e que nos fazem olhar para fora em busca do que precisamos dentro de nós?

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