Caia uma tempestade naquela noite. Havia me deitado, porém, os raios me impediam de dormir. Os galhos das árvores balançando realizavam sombras de garras e braços medonhos na parede do quarto. Levantei-me para fechar as cortinas, mas de nada adiantou. Aquele vulto me incomodava. Talvez por assistir a um filme de terror, naquela tarde. Confesso que sou medrosa. Fico impressionada facilmente.
Acendi o abajur que ficava preso na cabeceira da cama, peguei um livro para ler, e retomei a leitura da noite passada. Distraída, já nem sentia o incômodo das sombras na parede. Em certo momento, lembro-me que a janela abriu rapidamente. A cortina ficou voando e a chuva invadiu o quarto. Irritada com aquilo, dei um pulo da cama para ir fechar a janela.
Ao me aproximar da janela, como já era de se esperar, molhei-me por completo. Já com a ela fechada, peguei-me olhando a tempestade. A noite iria ser longa, provavelmente eu não dormiria. Senti meu corpo gelar em certo momento, contemplando toda a fúria da natureza, notei uma figura do outro lado da rua. Não sei ao certo o que era. Tenho a impressão de ter visto olhos amarelos. Talvez seja meu nervosismo ou imaginação, mas posso quase afirmar que aqueles olhos eram amarelos. Mesmo com grau de miopia alto, eu vi aqueles olhos.
Esfreguei os olhos e olhei novamente para ter certeza do que estava vendo. Quando olhei, estava tudo deserto, apenas a chuva e sua pequena enxurrada descendo a rua. Devia estar mesmo cansada e louca, foi o que pensei. Deitei-me novamente na cama, já nem lembrava mais do livro. Além de não dormir, iria pernoitar com medo daquela figura que minha mente com tanta loucura imaginara.
A noite se passava e meu pavor fazia com que aquela figura se transformasse em algo cada vez pior. Dentro daquele quarto, o medo era maior que qualquer coisa. Aqueles galhos de árvore se transformaram em demônios que ficavam dançando em minha parede. É impressionante o que nossa mente pode construir quando se está em um estado de total pavor.
Por três vezes ponderei ir até à cozinha, tomar um copo de água, ou até mesmo ao banheiro para molhar o rosto. Meu corpo pesava uma tonelada, e quando pensava em me levantar o medo aumentava. Acredito que uma criança de cinco ou seis anos, passe por isso em algumas noites. Ao me indignar com a postura que estava tendo, levantei-me com raiva das minhas besteiras mentais. Caminhei até a geladeira, me servi um copo de água gelada, daqueles que fazem com que a cabeça dê uma pontada. Respirei por um tempo, para que meu corpo, e principalmente minha imaginação, diminuísse o fluxo de agitação.
Já calma, retornei ao quarto. Atravessei a porta que dava para a sala, na cadeira em que meu pai lia seu jornal todas as manhãs, havia alguém. Era uma figura demoníaca, com olhos amarelos. Sentado, me olhava com frieza. Minha reação inicial foi gritar por socorro, entretanto, minha voz não saía, sentia meu corpo imobilizado pelo medo. Lentamente, ele se levantou e caminhou em minha direção. Levantou seu indicador até meus lábios e fez um barulho com a boca, sinalizando silêncio.
Pegou em minha mão e juntos, caminhamos para o andar de cima. Chegamos ao final da escada e fomos em direção ao quarto de meu irmão mais novo de três anos. Ele estava dormindo serenamente em seu berço. Fomos até ele, aquele homem que me segurava pela mão, parado, ficou olhando para meu irmão. Eu, imobilizada, sentia por dentro as chamas do medo. Um sofrimento imenso tomou conta de meu corpo, lágrimas descontroladas rolavam pelo meu rosto. A angústia aumentava lentamente e dilacerava meu peito lentamente. Sentia a morte perto. Em meu ouvido uma voz sussurrava para matá-lo. Aquela figura, estava agora do outro lado do berço, me olhava profundamente, nem me dei conta de que ele havia soltado minha mão. Ponderei clamar aos céus e nesse momento, a voz em meu ouvido dizia que eu já o pertencia.
Segurei no pescoço daquela criança e o estrangulei lentamente. À medida que sentia sua vida se esvaindo, meu corpo se regenerava, eu era tomada por um prazer sujo e imoral. Aquele ser que se encontrava em minha frente sorria maliciosamente e me olhava com ar de aprovação. Naquele momento, não era mais eu, era ele manipulando e enviando uma energia de prazer ao crime. Sentia em todas as células do meu corpo que já não pertencia a esse mundo carnal. Após tirar a vida da criança, olhei um instante para o berço e vi um verme frágil jogado em cima de um colchão estampado com aviões. O homem de terno caminhou em minha direção, me deu um beijo e sussurrou em meu ouvido que deveríamos experimentar algo maior. Caminhamos para o quarto de casal.
No quarto de casal, encontrava-se minha irmã, confesso que morria de inveja dela. Era oito anos mais velha que eu. Tinha a vida bem encaminhada, quanto a mim, só restava o título de lenta da família. Meus pais não estavam em casa e ela sempre dormia ali. Em cima da estante do quarto, no meio da coleção de pequenas lâminas de meu pai, havia uma que achei sempre bonita e me despertava o interesse, decidi usá-la. Caminhei até minha irmã e dei vários golpes na barriga, à medida que a golpeava, meu corpo crescia e sentia o poder em minhas mãos. Eu não queria parar. Não podia parar de sentir o prazer de matar, e ele parado ao meu lado, aprovava.
Acorda, está na hora da escola!
Era o mesmo grito todas as manhãs e novamente eu acordava do mesmo pesadelo de todas as noites.

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